Uma cidade inteira era como um país. E deste tamanho que lhe parecia, era como se o tivesse percorrido inteiro. Cada ruela, cada alameda... Apenas os salões interiores (da maioria) das casas ricas do Elevado não conhecia. Mais do que um vagabundo, o garoto era um sobrevivente. E um louco, também. Não havia razão qualquer para abandonar seu lar, seu padrasto não o agredia, nem sua mãe era severa demais. Tinha até mesmo uma irmã, mais velha, ainda mais doce que sua mãe.
O garoto, no entanto, desde que lhe farpeavam os pelos na cara, duvidava que aquilo fosse real. A cidade crescida nas escarpas lançava os casebres apinhados em suas costas, agarrados com força para que a chuva não os lavasse. Pelo menos, força de vontade. Da beira do precipício, precipitavam-se vidas, cadentes de peste e miséria. Mesmo assim, a viúva encontrara a sorte no amor de um marceneiro. Sua filha era bela como flor, e um mercador decidira vir das praças planas para cortejá-la. E mesmo assim, o garoto se lançou dali.
Um espírito devia ter possuído ele, diziam. Ou então, ele foi sequestrado por um ladrão de crianças. Haviam muitos na cidade. Mas vários relatos afirmavam que o mesmo menino, o amado garoto, ainda estava pela cidade. O mais degradante era que falavam que ele roubava, aprontava, vivia sujo, quando não tomava banho em público. E não falava com ninguém! Vivia fugindo, e fora assim que percorrera cada canto de rocha e terra daquela cidade.
Como um dos cães, pombos, corujas e gatos, espreitava todos os outros seres. Pegava o que lhe servia de comida. Fugia dos bruscos, aproximava-se dos delicados. Quando acocorava-se ao lado de uma escada, fitava as pernas, lendo suas pressas. Vez em quando subia o muro de uma vila privada, ou apenas checava do alto de um telhado as brincadeiras de outras crianças. Um olhar piedoso escapava para ele, às vezes, embora fosse mais fácil ignorá-lo. Mais frequente. Tão frequente como era para ele esquecê-los e depois, sozinho, na madrugada, fazer ele mesmo sua brincadeira, preenchendo as ruas desertas de ação e movimento, do jeito mais divertido que lhe parecesse.
Na sua cidade, aquela vazia, da madrugada, havia algumas diferenças. Tudo estava em paz, até que chegavam as pessoas más, assustavam os outros, então vinha um herói. Qualquer um podia ser o herói daquela vez. Pescador, verdureiro, cônego ou cavalariço. Ele enchia-se de coragem, de agilidade e força, enfrentava-os e salvava a cidade. Cada um tinha sua vez, cada noite uma aventura diferente, em um lugar diferente.
Um dia, seguinte a outro qualquer, dormia o garoto em um banco ensolarado. Uma guarda o levantou pelo pulso. Avistou ali o anel roubado que procurava, cerrado no punho da figura selvagem. O garoto falava, dizia uma história em que o anel era amaldiçoado e que ele ia lançá-lo no rio, antes que fizesse mal a mais alguém. A história ia mudando, conforme não fazia efeito, bem como o semblante da guarda, cada vez mais aborrecida.
Levado à praça, sua mão foi colocada sobre um tronco seco, riscado de talhos e manchado de sangue. O anel, já sob a posse da oficial, era apontado para que ela lançasse a acusação. Da multidão, apinhando-se aos poucos para ver o caso, dividiam-se os que conheciam a figura gatuna, e os que tinham pesar por ver uma criança naquela situação.
- Você assume que tirou o anel de sua proprietária?
O garoto apenas balançou a cabeça, concordando. Não era tão raro assim ver um menino-ladrão. No entanto, era ainda chocante para que uns virassem os rostos antes de ver o facão descer e separar a mão que rouba do braço que resta. Uma mulher gritou, saíra correndo para avisar a irmã do garoto, pois o reconhecera. A guarda levantou o menino, banhado de lágrimas da dor. Apertou o torniquete e lhe perguntou outra vez.
- Vai se lembrar do que fez? Que da próxima vez, perde a outra mão?
Ele balançou a cabeça outra vez, então titubeou enquanto fazia uma pergunta de volta.
- Viu como o anel é mal? Por causa dele, você cortou minha mão. Me promete que vai jogá-lo fora agora?
Ela soltou o garoto e alguns riram da conversa, recebendo a represália dela logo depois. Chamou o garoto de louco e perguntou se alguém sabia dos pais dele, para levá-lo dali. Ainda estava por chegar quem o diria, então ela saiu, antes que o sorriso do menino, aquela feição inocente, que não entendia o que tinha a perder a perturbasse mais.
A dona recebeu de volta o seu anel, a guarda fora recompensada. A irmã não achou o seu irmão, que fugiu e se escondeu, onde teve tanta febre que faleceu. A guarda foi abordada pela irmã, que perguntou do que fora feito do menino, ela não sabia, não era problema dela. Alguns dias depois, encontrou o corpo do menino e o levou até a irmã, dizendo que era uma pena que o menino fosse louco. Se ela soubesse, não teria lhe aplicado a pena. A mãe dele ouviu, e abatida, lhe perguntou o motivo que ela o teria poupado.
- Ele não sabia o que estava perdendo. - Ela respondeu e fechou a porta, tentando esquecer aquela história, tão fácil quanto esquecera o rosto da dona do anel. Respirou fundo. Olhou por uns quinze minutos o rio que cortava a cidade. Suspirou, como seria melhor ter jogado o anel no rio e esquecido aquela história, mas ela não sabia o que estava perdendo, quando simplesmente cumpriu o seu dever.
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